De Jack para Ennis

Meu querido Luterano,

Já que você veio me visitar (obrigada, volte sempre), vou te escrever algo que já queria te falar há algum tempo, porque me faz lembrar um história que você deve ter vivido também. Sabe qual é um dos meus filmes preferidos? Brokeback Mountain. Sabe porquê? Não só porque aborda o tema da homosexualidade da forma mais linda que eu já vi. Mas porque fala de um amor muito forte, transcendente ao tempo e à todas as circunstâncias, mas que não consegue se realizar plenamente por causa de medo terrível que um dos parceiros tem de assumir, por causa de coisas erradas que colocam na nossa cabeça na infância.
Você já reparou que o Twister (Jack) fazia QUALQUER COISA para estar com o outro. Se assumia para os pais, viajava kilômetros, quantas vezes fosse, para estar com quem ele amava e seria capaz de enfrentar tudo por aquele amor? Já o Ennis Delmar (esse nome nunca vou esquecer), foi criado de outro jeito. Foi traumatizado na infância por um pai que, por sua vez deve ter tido seus motivos (absurdos) para fazer o que fez. Viu, acabei de julgar o pai dele, de quem não sei nada.
O que quero dizer com isso é que sempre haverá alguém para julgar, ficar magoado, triste, revoltado ou decepcionado com as decisões que tomamos na nossa vida. A única coisa que me entristece muito, muito mesmo, e me faz chorar todas as vezes que assisto ao filme, é que eu não gostaria de estar no lugar do Ennis, mesmo porque eu sou completamente Jack Twister quando amo, porque isso é importante pra mim (felizmente estou entendendo, à força, que o que é importante pra mim, pode não ser tão importante para o outro. Aliás, até era muito importante para o Ennis, mas ele simplesmente não conseguia…).
Toda vez que acaba o filme, quando eu percebo que nem naquele momento ele consegue dizer que ama o Jack, eu entendo mais uma vez que as pessoas têm limitações. E que, mesmo que eu sinta muita tristeza por causa disso (o Jack morreu de desespero – isso acontece), eu tenho que aceitar.
A única coisa que eu não quero, é abrir meu armário um dia, já velha e sem esperanças, e ver roupas sem manchas e sem marcas de um amor que nunca sangrou, porque nem essa oportunidade ele teve.
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Um comentário sobre “De Jack para Ennis

  1. Lu (a mais britânica das caiçaras!),Seu texto é uma faca de “dois legumes”… ou a pessoa que lê entende e a carapuça lhe cai como uma luva, ou não entende porra nenhuma e segue a vida de uma forma, diria eu, sem sal!Como sei que pessoas inteligentes como você se cercam de, no mínimo, pessoas também inteligentes, seu recado está mais que dado.Resta saber como será encostar a cabeça num travesseiro e ter a certeza de que uma VIDA foi desperdiçada por falta de coragem… que horrível!!!Acredito que Deus, quando nos coloca nesse mundo, espera no “mínimo” o “máximo” de coragem em nossas atitudes, independente das dificuldades que temos e dos obstáculos que temos que enfrentar. Daí, os fracos (esses do travesseiro…) já começam perdendo e assim vão para o resto de suas existências.Tenho a satisfação de saber que quando eu estiver velho, fraco e sem esperanças, vou abrir meu armário e encontrar muitas (mas muitas mesmo) roupas manchadas de sangue de amores sangrados, de vida vivida. E sei bem que o seu armário também estará assim.Valeu o recado e depois dessa, “avança duas casas”!Com muito orgulho,Nando.

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