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Do sangue e das ondas

O sangue jorrava do peito… Ela tentava disfarçar, mas, estranho… tanto sangue e ninguém via, só ela. Ninguém tampouco percebia a dor. Ah! Não era possível que tanta dor não estivesse estampada no rosto. As pernas, fracas. Os braços, doloridos. O estômago, esse parecia ter sido arranhado pelas garras de um urso. Mesmo assim, mecanicamente, ela continuava andando, e sorrindo para quem a cumprimentava. Eles também sorriam e não viam o sangue, o cambalear, a dor, nada! Ainda diziam: -Você está tão bonita!!!. Ela quase sentia raiva, mas quando se sofre tanto assim, não há espaço para nada além da tristeza.

Ela lembrou de quando tinha perdido seu pai. Uma parte dela desapareceu no chão que se abriu aos seus pés e ela nunca mais foi a mesma. Faltava essa parte, que foi embora, pra sempre, junto com ele. A sensação de agora ser apenas parte, era incompreensível. Ela só sabia que tinha a ver com a sua identidade, que continha a assinatura dele. Afinal, de toda a sua construção como pessoa, participaram as mãos caladas e zelosas dele. Era como se tudo que ela conhecia como realidade tivesse mudado de um minuto para o outro. Num minuto ele estava vivo, no outro não existia mais, nem existia mais aquela parte dela, que ele construiu e assinou, como um arquiteto a quem ela devia muito na vida. Recordou a dor que sentiu na ocasião. Podia até sentir: era como uma faca, enfiada e girada milhões de vezes no meio do peito. É!!! É assim a dor de perder um pai. Agora não doía mais, nem menos…era diferente. A dor do pai se parecia mais com passado, mesmo sabendo que ela ficaria ali, em um canto perdido da alma, por todos os dias de sua vida. A dor que sangrava agora, essa se parecia com uma saudade do futuro, saudade do que nunca será. Nunca mais os planos, projetos, realizações e a certeza de concretizar seus sonhos, todos repletos de amor. Nunca mais.

Tudo que ela podia fazer era tentar enxugar o sangue, mas nem isso conseguia, estava totalmente impotente. Então chorou um pouco, limpou os olhos para que ninguém visse e continuou andando, sangrando, berrando por dentro: socorro!!!

Quando chegou à praia, de frente para aquele tudo, que parecia tanto com nada agora, ela sentou e ficou olhando, morta, para o horizonte. Via as ondas que chegavam, dezenas, centenas, milhares, até que ela nem as percebesse mais. Um único pensamento teimava em martelar sua cabeça: E agora? E agora? E agora? Não vislumbrava o fim desse sofrimento, desse vazio, dessa gigantesca rejeição – a rejeição de quem mais se ama. Começou, então a chorar copiosamente, soluços, pequenos gritos, clamores, pedidos loucos de socorro. “Faça passar, faça ir embora”, ela pedia a Deus. Ele, por sua vez, devia estar ocupado com a fome no mundo ou com o preconceito, guerras, Natureza destruída, enfim, muito ocupado. Ela entendeu a pequeneza de seu problema e voltou, arrasada e sozinha, para dentro de si mesma.

Ela tinha perdido um grande amor, era só isso… Era o grande amor da sua vida – ela pensou – mas, mesmo assim, era só isso. Acontece todo dia, com milhões de pessoas. Todas sangram e morrem por dentro. E Deus continua ocupado com os grandes males do mundo, assim como deve ser.

Pensou em recorrer aos amigos, preciosos, aqueles mesmos dos quais ela havia se afastado quando estava forte, amando e sendo amada – ridículo! Todos diriam em uníssono: “vai passar, seja forte, parte pra outra” e todas essas coisas que as pessoas falam por que não sabem o que dizer, ou porque sejam mesmo grandes verdades quando se perde um amor. Seja forte… chega a ser engraçado. Como ser forte nesse momento? Ensangüentada, com as pernas fracas e o espírito quebrado. Como ser forte? Não dá! E cá entre nós todos, quem é que não sabe disso?.

Voltou pra casa, ligou o som, então o Djavan começou a falar: “tenha calma, tenha fé”. Até ele sabe que não tem mais jeito, mas disse para ter fé, quem sabe… Escutando suas músicas, deitou no chão, no escuro, chorou, chorou, chorou e dormiu… No dia seguinte, quando acordou, ela demorou um pouco para lembrar-se do que estava acontecendo em sua vida. Sabe aqueles minutos preciosos em que a gente até sorri? Então tudo voltou, o sorriso sumiu e ela se deu conta, novamente, de que tem que atravessar outro dia. Levantou cambaleante, foi até o banheiro, se olhou no espelho e percebeu que, como ontem, como amanhã, como depois de amanhã, e até que sua pena seja cumprida – inevitavelmente – O sangue jorrava do peito…

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Por isso que eu odeio aquela mulher…

Só para registrar: eu não odeio, até simpatizei bastante com a criatura. Quanto à indicação para o Oscar do “Ano…”, é política pura, cara Caiçara. É que, sendo índia, ainda que “muderna”, você não compreende. E melhor de tudo: descobri pelo seu blog que sou um cara legal!
Beijos suburbanos

Bom, me chamou de burra (índia foi meio para disfarçar “bicho do mato”), mas tudo bem. Você , como sempre, tem razão. Aliás, simpatizou com a vaca da foto? Sua mulher sabe disso? Eu odeio essa mulher com todas as minhas forças. Quero que a bunda e o peito (vide acima) dela caiam quando ela fizer trinta anos e vão parar no joelho. Pronto, falei!!!

Outra coisa, você não sabia ainda que era um cara legal porque você não é. Está anos luz além disso!

Eu te amo!
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MERDA!!!!!!!!!!!

Tropa de Elite perdeu a vaga para tentar o Oscar para O ano em que meus pais saíram de férias. Gente, eu nem vi O ano…., mas a justificativa é ridícula: O Ministério da Cultura acha que a Academia não costuma premiar produções com cenas muito violentas (não cabe a eles achar o que a academia ia achar do filme). Além disso, a Academia considera que filmes que focam dramas com crianças são mais premiados pelo Oscar. Pelo amor de Deus!!!!!!!!!!!!!! Maior drama do que vivem as crianças do tráfico?????????????????? Fiquei passada. Não precisa nem dizer que amei o filme. E o Wagner Moura? Sem comentários. Queria entrar para o bope só pra tomar uns tapas daqueles na cara. Ahhhhhhhhhhhhhhhh! É Nelson Rodrigues, você é quem tinha razão.