Que saudade das minhas chupetas…

Só faltou uma forma – alias, várias: com um olhar, um gesto, um carinho, pela simples presença ou mesmo pela simples existência do outro. Eu amo sempre sem dizer e sim mostrando de forma muito discreta.

Marcos

Refletindo sobre o comentário do Marcos, lembrei do jeito do meu pai dizer eu te amo. Ele cozinhava. Fazia a melhor comida do mundo, cozinhava calado, comíamos calados, agradecíamos, elogiávamos, mas ele estava sempre calado. Quando eu tinha dor de garganta, ele cortava a carne em pedaços quase invisíveis para não machucar minha garganta. Meu pai nunca disse “eu te amo” para nenhum de nós lá em casa. Eu disse NUNCA, nem mesmo um tímido – eu gosto de você – mas a gente sabia.
Até hoje não sei dizer o que isso provocou em mim. Não sei se uma criança entende que um prato de comida, infalível e delicioso é como ouvir “eu te amo” dos lábios de um pai. Uma mulher de 40 anos sabe. Mas uma criança…
Não culpo meu querido pai. Ele ficou órfão aos 4 anos, no sertão da Paraíba e, provavelmente esse negócio de “eu te amo” devia ser como um ET lá pelos lados onde ele vivia. Ele não teve nem mesmo os braços e o olhar da mãe dizendo “eu te amo” para ele. Então ele cresceu, mas trabalhou na roça, desde bem pequeno. Veio pro Rio, foi pra marinha e só conhecia dureza. Mesmo assim, ele nos amava de um jeito bonito, não só cozinhando. Ele NUNCA deixou faltar nada pra nós. Eles não sabiam ensinar nossos trabalhos de casa e me pagaram uma professora, tia Lenita. Eu completei minha faculdade com ele pagando a metade. Tudo que eu tenho tem o suor dele. Aquelas gotas de “eu te amo”, que eu também não entendia.
Quando eu era bebê e gostava de chupeta (até os dois anos), ele me trazia uma diferente todas as semanas. Eu tinha um saco de chupetas. Era um saco de “eu te amos” mas eu não sabia. Aqueles maravilhosos pratos de comida que ele fazia, eram verdadeiras declarações de amor, com música, flores e perfume, mas eu não sabia. Ele nunca conversava. Ele era quieto. Ele não dizia “eu te amo”; mas não posso imaginar amor maior do que o que o meu pai nos deu. Ele trabalhou 30 anos como um capacho na marinha, nunca subiu muito de posto por falta de estudo. Mas ele nunca desistiu. Afinal, havia duas boquinhas em casa, esperando chupetinhas e comidinhas que só ele podia nos dar.
Pai, eu não sei se a criança que vive em mim tem mágoa ou uma carência absurda por nunca ter ouvido essas palavras tão importantes, principalmente quando vindas do seu super herói. Mas a mulher de 40 anos tem tanta saudade dos seus “eu te amos”, que daria tudo pra voltar no tempo e te dizer: Pai, essa comida estava maravilhosa, eu também te amo…

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2 comentários sobre “Que saudade das minhas chupetas…

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